Rua boêmia de Belo Horizonte. Estranho! Na literatura este mesmo endereço é descrito de uma maneira deslumbrante. Literatura é transformadora, então, na literatura, aquela rua tornou-se bela.
Guaicurus, centro de BH, é o cenário de um dos seus livros favoritos, “Hilda Furacão”. Aquela personagem linda, magnética, ao mesmo tempo delicada e devastadora, considerada a fada sexual. Era também a garota do maiô dourado, que dançava a beira da piscina no Minas Tênis Clube. O fato do garoto não saber se ela realmente existiu, deixava uma lacuna em seu ser, um olhar opaco, uma resposta que só o autor poderia dar.
Tudo começou por um telefonema que trouxe motivação pois trazia boas novidades, uma entrevista de emprego. Na hora marcada lá estava o garoto, devidamente vestido para a devida ocasião, batendo o interfone no endereço da empresa. Lá dentro, na sala da diretoria, tudo correu bem, e a entrevista fluiu, sem nenhum contra tempo. Em seus pensamentos, insistiam a perguntas: Será que a empresa vai me contratar? Qual será a imagem que eu passei? Será que eles gostaram de mim? Os questionamentos martelavam, batiam forte igualmente a um martelo.
Quando saiu do estabelecimento, logo depois do término da entrevista, ele, ao caminho da rodoviária, parou em uma lanchonete qualquer para lanchar. O garoto com uma expressão distante, pediu a moça do balcão uma fatia de pizza e um refrigerante, sentou-se solitário na mesa do fundo.
A lanchonete até que era arrumadinha, bonitinha, tinha até uns quadrinhos com fotos antigas do centro de BH.
Mas não foi o layout do estabelecimento que o levou até ali, também não pensem que foi fome, a fome era apenas um pretexto. Ele buscava um lugar que pudesse sentar e pensar com calma, talvez, uma tentativa de domar seus pensamentos avassaladores, tanto é, que, ele escolheu uma mesinha bem ao fundo, perto de um quadro com tons de sépia que retratava a praça sete em tempos antigos. Aquele hábito de solidão, mesmo em meio a grande maça de pessoas que dominam o centro de uma cidade, era reconfortante, e foi na lanchonete, dos quadros, na mesa bem ao fundo, que ele encontrou um pouco de conforto.
Sob a trilha sonora dos ruídos, buzinas, burburinho de pessoas, o garoto comia sua pizza e bebia seu refrigerante.
Tudo isso compunha o cenário de seus pensamentos, que reproduziam questões sem resposta do seu cotidiano, sem contar a cobrança em relação ao futuro resultado da entrevista, que era mais um acréscimo para seu sofrimento. E o que ele tinha mais medo era o que os outros iriam pensar se ele não fosse chamado pela empresa, principalmente, o que sua mãe iria pensar e como ela reagiria.
Quando acabou de tomar seu lanche, pagou a conta no caixa que ficava pouco mais à frente, perto da entrada da lanchonete. Passou pela porta e caminhou em direção à rodoviária, que estava localizada ao final daquela mesma avenida. A intenção era chegar à rodoviária, e passar na passarela que a ligava ao metrô. Mas ele não conseguiu adentrar naquele espaço, na verdade, ele só viu a grande fachada. Antes que ele chegasse, duas esquinas antes, ele viu na pequena placa azul com letras brancas, escrito, “Guaicurus”.
Foi um momento de choque, de repente, ele estava ali, sem perceber, no endereço daquele livro, no mesmo cenário, era uma sensação estranhíssima. Subitamente ele resolveu virar aquela esquina, sem pensar direito, como um animal instintivo. Foi uma reação tão súbita que ele até esqueceu de chegar à rodoviária e, consequentemente, de pegar o metrô.
Enquanto descia aquela rua, deslumbrado com o contraste que formava sob seus olhos, as comparações mentais, involuntariamente, traçava as descrições do livro com a paisagem real. O real era diferente da ficção, e só ali ele percebeu essa distância, por isso ele andava com certo receio. Já havia se desviado do destino original e, agora descia a rua, com os olhos arregalados e atentos com as lojas que expunham conteúdo erótico nas vitrines, isso tudo em plena luz do dia.
Como é que ele havia parado ali? Estava chocado com ele próprio, ele com as roupas formais, naquele local marginal? Ele parecia um estrangeiro. Realmente era.
Se misturando aos senhores sedentos que queriam sexo, ele sentia vergonha por estar ali, apesar de estar ali apenas por curiosidade, por questão de cenário. Quanto mais ele descia a rua, descobria o que ele não queria ver. Via meninas novas se prostituindo, caras que o encaravam entre o intervalo de uma tragada e outra, travestis roubando os pedestres que, por sua vez, andavam distraídos pelas “diversões” que a rua oferecia.
Ali era democrático, carne nova e carne velha se misturavam. Tudo ali se misturava, até eu. Os fregueses como em um balcão de açougue, selecionavam a carne, tinha para todos os gostos, carne gorda, magra, fresca, velha, com conservante e até carne podre.
Ali, qualquer um tinha condição, afinal, o preço era popular. Ali era feira!
Ele estava deslocado, em nenhum momento encontrou a elegância mostrada no livro, muito menos meninas com a delicadeza de Hilda. Ali, o que permanecia era a agressividade dos travestis, que se igualava ao personagem Cintura Fina, e os homens dos tipos mais baixos a procura de sexo, o que também tinha no livro.
Vendo aquilo, já quase no final da rua, cercado de olhares estranhos, ele virou, e pelo mesmo lado da calçada, foi caminhando pelo sentido inverso do percurso que ele havia feito. Na medida em que se aproximava da esquina seu rosto se abria em uma sensação de alívio, até que ele chegou de frente à placa, o ponto inicial que desdobrou em descobertas.
Por nenhum instante ele parou sua caminhada, pelo contrário, passou pela placa, “Guaicurus”, e nem se despediu. Aumentava a velocidade dos paços enquanto descia a avenida que levava a rodoviária, era como uma vítima fugindo de um bandido, ele corria tentando chegar logo a rodoviária, e tentava afastar de si a neblina da imagem anterior. Talvez fosse por isso que ele corria tanto.
Chegou na rodoviária ofegante, parou diante do caminho que levava até o metrô, chegando a conclusão que as realidades são construídas. Tentou também olhar para situação ocorrida como um trabalho de campo, já que, ele estudava literatura. Ele sabia que chamar aquilo de “trabalho de campo” era um eufemismo que ele usava para não sentir vergonha dele mesmo, por ter mergulhado naquele universo, mesmo sendo um elemento heterogênio naquela situação. Jurou para si mesmo que ninguém saberia daquilo, e se sentiu confortável por saber que não fazia parte daquele mundo.
Logo depois, tomou água em um bebedouro que estava ali perto e prosseguiu a caminhada em destino ao metrô que, por fim, o levaria ao seu destino. Ele preferia estar acompanhado de seus questionamentos e tristezas, do que envolto naquele mundo destrutivo.
Bem baixinho ele suspirou, ilustrando seu alívio, e continuou dando seus passos cansados chegando ao metrô.
(=.U)




2 comentários:
eu adorei! Você escreve super bem, parabéns mesmo! :)
ameei seus post,, segue meu blog?? beijos ;**
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