sábado, 11 de junho de 2011

Eu Leitor



Lembro-me de minha infância, que fora a fase em que tive meus primeiros contatos com os livros.

O garoto, aquele garotinho que, eu, hoje, enxergo com certa distância, mas que ao mesmo tempo está tão perto, que consigo sentir através das lembranças, as mesmas sensações que me inundava ao mergulhar das histórias. Ele era estudioso, empenhava-se em ser o melhor da sala. Preocupava-se com as comparações que a mãe sempre fazia entre ele e seus colegas, de forma que qualquer tentativa de superação passava despercebida, e todo esforço era praticamente desnecessário, já que ela insistia em exaltar apenas seus defeitos.

Eu era recluso, devido às agressões morais de meus colegas de classe que, por querer, a cada dia de ofensa rasgavam a minha auto-estima. Sádicos? Não sei. Talvez, soldados do mal disfarçados de crianças. Eles pisavam com seus coturnos hostis em meu ser. Torturaram minhas forças de forma tão insistente, que sem fôlego para o sofrimento, preferi me trancar dentro do meu infinito particular.

Doce menino, com uma sutil inocência no olhar e a fragilidade diante do mundo, queria apenas se misturar aos colegas, ser mais um aluno comum, de uma turma escolar qualquer.

Biblioteca de escola pública, que não possuía muita infra-estrutura, e que ocupava um espaço tão pequeno que era difícil a permanência de mais de 10 pessoas, ao mesmo tempo, naquele mesmo espaço.

A biblioteca era um cômodo, sim, um cômodo especial do meu infinito particular. Talvez fosse como uma sala de estar, onde eu encontrava aconchego e refúgio.

Nela, os livros me proporcionavam viagens, lindas e magníficas viagens. Mergulhei nos livrinhos finos da “Coleção Vagalume”, me sentia astuto com Ulisses ao ler “A Odisséia”, e sentia emoção, com o sofrimento dos personagens do livro “Éramos Seis”.

Há, não posso retornar ao passado, sem me lembrar do escritor que me introduziu verdadeiramente a esse mundo. Pedro Bandeira. Imagino que não apenas eu, mas muitas outras crianças, já se encontraram dentro das obras desse autor. Através do livro “A marca de uma lágrima”, eu consegui me enxergar por completo, e pela primeira vez, com algum personagem.

Acho que aquele momento de sofrimento que eu estava passando me obrigou a construir um interesse de leitura mais voltado para romances, pois no romance, eu me sentia reconfortado pela história e abraçado pelo livro. Hoje, vendo como em uma visão panorâmica, sinto que o abraço físico que faltava, o olhar de atenção e o amparo, eram substituídos pelos livros.

Cada vez que reencontro esse garotinho, que sou eu, consigo esclarecer momentos que antes estavam empoeirados pelo passado das lembranças. Naquela escola, naquela biblioteca, com minha idade de aproximadamente 10 anos, eu me construí através do sofrimento e através dos livros.

Com o passar do tempo, nessa mesma escola, que estudei até a conclusão do ensino fundamental, mergulhei em outras obras de Pedro. Pedro descrevia com perfeição as situações e sentimentos que vivia naquela fase de minha vida. A Droga da Obediência,

A Droga do Amor, Pântano de Sangue, A Droga Americana, entre outros, foram os livros que eu li.

O tempo passou, eu formei, eu cresci, eu desenvolvi e amadureci. Logicamente, eu li muitas outras obras de outros autores, tanto brasileiros, quanto estrangeiros. A maioria das histórias e estórias lidas me ajudou a construir o Raphael de hoje.

Mudei de escola, de ambiente. Na escola de ensino médio, a biblioteca era mais ampla e a diversidade de livros era maior, foi nesse período que eu conheci a saga Crepúsculo da autora Stephenie Meyer. Devorei, senti o gosto, saboreei cada página. Tive que comprá-los, eu tinha que tê-los. Eu tinha que ter o sentido de posse, poder ter o objeto de satisfação próximo, igual a um copo de água para saciar minha sede. Poder me relacionar com um livro sem pressão, sem pressa, a qualquer hora, e enxergar cada um enfeitando minha prateleira, não tinha nada que me completasse tanto. Comprei, e depois deles comprei outros.

Com Crepúsculo descobri em mim o lado de possuir e, mergulhando mais fundo, descobri que meu lado possessivo coexiste com a minha face egoísta. Não empresto, queria tê-los exclusivamente para o meu deleite. Seria possível emprestar o namorado pra alguém? Pois não empresto os meus livros.

Hoje, o Eu atual e o Eu anterior conversam através da literatura. No livro eu vivo, eu sinto e, sobretudo, escapo dos meus dramas da vida real. Eu me reconstruo e me resolvo na literatura.


Leitura é para mim uma experiência de renovação.




2 comentários:

Cliceli A. Kovalski disse...

olá
adorei sei blog
estou visitando e divulgando o
meu que é recente.
siga se gostar...! eu te sigo
http://cliceli.blogspot.com/

Nádia de Sa disse...

Muito bom Rapha... PARABÉNS!