sábado, 26 de maio de 2012

Foi Culpa da Coxinha



Houve certa vez que fui obrigado a utilizar uma “Lan House”. O meu computador estava estragado e eu não tinha outra opção.  Nessa minha visita tudo poderia ter sido normal, mas alguns fatos me surpreenderam. Me irritaram profundamente. Daquele tipo de irritação que os nervos saltam.
Antes que eu explicite o meu extremo horror, deixo bem claro que sou CALMO. Respiro fundo algumas vezes. Um. Dois. Três. Porém, nem isso serviu para apaziguar os meus nervos naquele dia.
Eu estava acomodado em minha cadeira, afundado na minha baia, quando um rapaz ao meu lado, um menino sem camisa... Suado, foi ao balcão e pediu uma coxinha. Eu olhei com um olhar bem desconfiado. Digo até que preocupado. Esse rapazinho pegou a coxinha com o guardanapo, porém foi apenas ele sentar-se em seu lugar (ao meu lado) que logo se desfez do papelzinho protetor.
            Coxinha. Mão. Gordura. Todos se abraçando, se lambendo. Uma tragédia. Fiquei tendo espasmos de horror, pensando o que ele faria com aquelas mãos lambuzadas.
            Com as mãos banhadas em sujeira e óleo de soja, ele começou a digitar um recado em sua página do Orkut. A boca estava ensopada, parecia que ele tinha usado gordura de porco como brilho labial, e a mão? Nem preciso comentar. Na medida em que ele percorria os seus dedos pelas teclas, elas iam se afogando, sôfregas.

Naquele momento, a minha vontade foi de me levantar e estapear a cara dele, sem dó. Sim, sei que é violência e eu não deveria cultivar esse tipo de sentimento dentro de meu límpido e sadio ser, por isso deixo claro que eu permaneci sentado e explodindo emoções, só isso. Portanto, se chegarem perto de mim, não digitem com as mãos engorduradas, por favor, se não...




quinta-feira, 17 de maio de 2012

7 _ Quase no Fim





Em um dia que a chuva parecia golpear a janela da sala do apartamento de meus pais, eu estava deitado no sofá de veludo azul escuro, bem apertadinho, junto à estante que abrigava os livros, juntamente com adornos que lhes faziam companhia. Era uma tarde de um lânguido sábado, em que eu também sentia a lentidão do tempo. Ele que estava calmo e violento. Um paradoxo se formava no clima e em meu coração.
            Ultimamente eu quase não via o tempo passar, e desfrutar de um momento como esse, deitado no sofá, era algo impagável. Havia uma semana que eu não o via e nem me comunicava com ele. Daniel. Os meus telefonemas não eram atendidos, as mensagens no celular e, muito menos, os meus e-mails.
            Depois de uma semana repleta de acontecimentos burocráticos, eu estava sentado sozinho em um canto, sem nem meus pais para me fazer companhia. Depois de um longo período de intensa felicidade, eu voltei a sentir o amargo gosto da tristeza nos lábios. Forte gosto de fel, gosto ruim que me fazia franzir o senho. Ponto final. De alguma maneira eu sabia que depois desta fase nada poderia existir.
            Minha mãe havia acabado de sair. Meu pai sempre ausente, de certo devia estar na casa de algum amigo, ou com sei lá quem. Volto a reiterar, o peso da semana sobrecarregava o acúmulo em meus ombros. Não era fácil utilizar cada gota de criatividade existente em meu cérebro para fazer propagandas, enquanto o meu próprio ser decaia no descrédito em frente ao auto-reflexo. Não sei se vocês sabem, mas criatividade esgota, ou pelo menos diminui de acordo com o uso. Estafado eu estava, deitado no sofá. Deitado no sofá eu estava. Sofá. Deitado. Deitado. Sofá.
            Era quatro da tarde, os ponteiros do antigo relógio, encima da porta que dava para a cozinha, me pressionava e mostrava que alguma coisa deveria ser feita com urgência. O tempo da fase estava esgotando, chegando ao fim. Últimos minutos. Eu estava sendo derrotado. Sendo exterminado por eu mesmo.
            A baixa e estreita mesa de centro suportava um telefone preto. Tomei uma atitude, liguei. Eu queria ouvir apenas uma voz no mundo.
_ Alô_ Uma voz grave atendeu, e através dela pude sentir uma estranha gravidade.
_ Olá, boa tarde. O Daniel está em casa?_ Perguntei. Inseguro. Não pronto, mas perguntei.
_ Não, Jhone_ Assim, simples, seco, gelado ele me respondeu. Sem me dar espaço de perguntar mais. Saber mais sobre ele. As cordas que ligava a ponte ao sólido, fora cortada.
_ Oi senhor Carlos, eu tenho ligado muitas vezes para o Daniel, mas ele não respondeu nem uma das minhas ligações. O que está acontecendo?_ Perguntei, me arriscando, desobedecendo às pistas que a postura formal dele me impunha.
_ Eu não quero mais que você ligue para a minha casa, nem para o meu filho. Ele disse e desligou o telefone bruscamente.
Eu voltei à solidão. Não me contive. O telefone caiu ao chão, e eu escorreguei pelo sofá até atingir o chão. A chuva deixou de se parecer agressiva. A partir de então, o que passou a me golpear foram as perguntas.
Por quê?

---------------------------------------------------------------------------------

sábado, 12 de maio de 2012

Diálogo

Cores. Vermelho, azul, amarelo. Três cores dialogando. Cores primárias, fortes, intensas, colorindo e, ao mesmo tempo, dando vida às formas. Poetizando os quadrados.
Diferenças que juntas compõem o mesmo corpo, uma mesma obra de arte. 
Como os pixels que compõem uma foto. Sozinhos eles são apenas um ponto, mas juntos formam uma imagem..




segunda-feira, 23 de abril de 2012

Por que eu amo Alice no País das Maravilhas?

"Eu sei quem eu era quando 
acordei hoje de manhã,
 mas já mudei uma porção de 
vezes desde que isso aconteceu." 
(Alice in Wonderland/Tim Burton)


Hoje eu venho aqui falar sobre a minha paixão por “Alice in Wonderland” e todo universo que envolve a obra de Lewis Carroll. Quem me conhece sabe que eu sou fascinado, aliás, um indomável admirador de Alice. Não me pergunte de onde vem, pois não saberei responder com precisão.
Acredito que o meu namoro começou a partir de um relacionamento natural. Desde pequeno eu me lembro de assistir “Alice no País das Maravilhas”, versão animada da Disney (imagino que muitíssimas crianças também). Na medida em que fui crescendo, percebi o quão diferente a história se apresentava, pois, como todos sabem, na versão original, Alice é uma menininha que cai em um universo totalmente diferente do que ela vive. Lá, além de conhecer vários personagens excêntricos, ela atravessa todos os obstáculos de um lugar desconhecido e improvável. Acredito que foi um processo de identificação, sim, mesmo eu sendo um homem. É algo inerente a mim, a minha própria subjetividade foi se firmando junto com Alice.
Li o livro pela primeira vez no ensino médio, em uma escolinha pequenininha, com uma biblioteca igualmente diminuta. Aii, chego a sentir a emoção. Os meus olhos brilhavam! Quando terminei a leitura, me deparei com um estranhamento, pois o livro é muito diferente das demais literaturas que se enquadram, ridiculamente, em infanto-juvenil. O que é uma lagarta azul que fuma narguilé e, toda lânguida, questiona a subjetividade da menininha? 
O que é uma rainha tirana que manda cortar a cabeça das pessoas? E então, céus! O que é uma lebre louca, um gato sorridente, um bebê que vira porco e um Chapeleiro Louco, tudo isso em uma mesa de chá, filosofando, e fazendo estranhos jogos de linguagem?
           
         Tudo isso me impulsionou a pesquisar mais e mais sobre esse universo. Entre as obras lidas referente ao tema estão: “Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho/edição comentada”, “Eu sou Alice” de Melanie Benjamin, “Alice e a Filosofia” que é uma reunião de artigos referente à análise filosófica e social da história, entre outros.
            Aqui, quero falar do livro “Eu Sou Alice". Melanie Benjamin é uma escritora norte-americana, em sua obra ela resgata historicamente a vida de Alice Liddell, sua família, e o relacionamento com o acadêmico da Oxford, “Charles Dogson” ou “Lewis Carroll”.
Melanie, além de contextualizar o cenário de produção do livro, mostra os costumes de uma sociedade burguesa vitoriana, em pleno século dezenove. A autora criou uma narrativa em que a própria Alice Liddell mostra os bastidores que inspiraram o livro, desde a infância até a velhice. Claro, ela criou um romance baseado em fatos históricos, mas não podemos esquecer que em sua obra existem muitos traços ficcionais.
O que mais me chamou atenção nesse livro é a relação “doentia”, vamos dizer assim, que “Dogson” (Carroll) tinha com as crianças. As fotografias de nu infantil, por exemplo, as brincadeiras, em fim... Todo o contexto.
Se atualmente isso é considerado estranho, imaginem em uma sociedade inglesa que vivia sob as leis de Victória, onde as mulheres tinham que se manter em padrão de princesas. Deve ser por isso que existe a “Chave” no livro de Carroll, por ser uma representação do fechamento em si próprio, traço importante daquele período, principalmente para as mulheres.
Esse livro me possibilitou enxergar a história sob uma visão mais abrangente, mais profunda e, logicamente mais crítica. Ou seja, o livro me contextualizou para a leitura da obra original.
Alice, em minha opinião, é um livro que retrata a figura infantil, a imagem da criança universal. E ao olhar por outro viés, Alice é uma das únicas obras que retrata a mulher sem o famoso “Complexo de Cinderela”, ou seja, a figura feminina dependente da masculina para se salvar de uma determinada situação.
Para finalizar, quero deixar bem claro que a minha intenção foi mostrar um pouquinho, a pontinha do meu fascínio por Alice. Tomara que vocês fiquem com água na boca e se aprofundem nesse mundo, é só cair no buraco do coelho.





sábado, 21 de abril de 2012

6 _ Intensidade e Calmaria



Estava sentado na poltrona vermelha de seu quarto, aguardando que ele ficasse pronto para irmos à formatura de sua irmã. Eu, estava completamente sóbrio, se tratando de minha vestimenta. Naquele dia eu usava uma camisa de botão com listras finas e verticais, uma calça de um jeans bastante escuro, em parceria com um sapato também escuro.
            Enquanto eu esperava em seu quarto, lugar onde eu já havia estado em  outras oportunidades, avaliei com atenção sua estante de livros, o que me fez de ímpeto, levantar e averiguar de perto as lombadas daqueles objetos literários.
Percebi então que Daniel tinha um gosto voltado para a literatura fantástica, pois sua coleção ia de Alice às histórias de Robinson Crusoé. Eu caminhava com o olhar. Discorria toda a minha fantasia ao ler aqueles títulos.
Perdido em meio aos diversos livros, uma mão me pegou pela cintura me aproximando a um corpo. Um corpo nu. Era Daniel.
Entramos no salão, iluminado de luzes douradas que me fazia sentir aquecido naquela noite fria. Junto conosco estava a sua irmã, belíssima moça, cinco anos mais velha que Daniel; sua mãe, também linda, com os cabelos longos e castanhos, pendendo delicadamente em um charmoso penteado. Por último, o seu pai, senhor grisalho, sisudo. Carlos.  
Daniel, esse é impossível descrever, tamanha a sua beleza e charme. Sua pele estava mais atraente do que o normal. Luzes douradas. Cores quentes.

A cerimônia de congratulação fora belíssima e não pude deixar de me emocionar. Após o final, o senhor Carlos me levou até em casa. A sua irmã Bruna ficou para uma pequena comemoração na casa de alguns de seus amigos, juntamente com o seu namorado. Portanto, no banco traseiro éramos nós dois, enquanto Anita, sua mãe, e Carlos ouviam uma música antiga, diria eu, “Vintage”.
Hoje, percebo que naqueles primeiros meses eu estava vivendo em um romance, parecido com aqueles de Nicholas Sparks. Só não sabia que tudo iria mudar.


---------------------------------------------------------------------------------