quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Análise do Vermelho Amargo *Contraste entre Mãe e Madrasta*





Bartolomeu Campos de Queirós, em sua mais recente obra, Vermelho Amargo, volta à sua infância e expressa através de uma narrativa com vários recursos poéticos, o sofrimento de ser uma criança sozinha e sem o amor da mãe.

Em seu livro, Bartolomeu mostra sua família, composta por ele, seus irmãos, a madrasta e o pai. O irmão que comia vidro, a irmã obstinada por bordar em ponto cruz. O pai, por sua vez, é mostrado com distanciamento e, sempre, como a figura marcada pelo alcoolismo. Já a madrasta, é descrita como alguém que despeja toda sua peçonha em seus gestos econômicos e, falta de amor, estabelecendo-se assim, um contraste com a mãe, que é representada pela extrema delicadeza e amor em que administrava os seus atos. Nos seguintes trechos pode se perceber essa relação:
[1] Oito. A madrasta retalhava um tomate em fatias, assim finas capaz de envenenar a todos. Era possível entrever o arroz branco do outro lado do tomate, tamanha a sua transparência. Com a saudade evaporando pelos olhos, eu insistia em justificar a economia que administrava seus gestos. Afiando a faca no cimento frio da pia, ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro como se degolasse um de nós. Seis. (pg09)

[2] Engolia o tomate imaginando ser ambrosia ou claras em neve, batidas com açúcar e nadando num de leite, como praticava minha mãe__ Ilha flutuante__ com as mãos do amor. (pg10)
       

Em Vermelho Amargo, o narrador-menino, rememora sua infância e, ao mesmo tempo, participa da história. A “falta de amor”, elemento que perpassa toda sua obra, evidencia o contraste, como já dito, entre madrasta e mãe.


Como mostrado no primeiro trecho acima, a madrasta em posse do fruto tomate (maior metáfora do livro) exerce sob o ato de fatiá-lo, gestos finos, precisos, sem a delicadeza que uma mãe teria ao fazê-lo.

Essa expressão é mostrada pelo autor através da maneira em que ele constrói seu texto; por exemplo, as palavras: fatias, finas, afiando, faca e frio. Todas elas remetem ao leitor, através da sonoridade da pronúncia, um som fino. Ao pronunciá-las em voz alta, não é necessário abrir muito a boca para emitir seus sons, já que o mesmo sai de maneira afiada, com a boca estreita, se igualando ao sentido dos gestos da madrasta, hostis, como uma lâmina.O trecho, incluso na parte final da primeira citação, comprova a idéia abordada nesse parágrafo, “... ela cortava o tomate vermelho, sanguíneo, maduro como se degolasse um de nós. Seis.”

Não deixando de apresentar o contraste estabelecido entre a mãe e a madrasta, destacarei a seguir outros momentos da obra que, também, reitera a imagem de faca, lâmina, vidro ou algo capaz de perfurar e machucar:
"Havia na cidade a madrasta, a faca, o tomate e o fantasma. A mãe morta ressuscitava   das louças, das flores, dos armários, das cadeiras, das panelas, das manchas dos retratos retirados das paredes, das gargantas das galinhas."(pg15/16)

“Ela decapitava um tomate para cada refeição.” (pg23) 

“Estacionado na porta do homem da tesoura, reparava seus cortes. Tudo eu olhava devagar para bem imaginar. Sua mão firme retalhava os caminhos riscados sobre a casimira ou linho.” (pg29) 
“O irmão, degustador de vidro, sabia ler.” (pg43) 
“Ele pegou o lápis, reparou sua ponta e me disse: “É preciso afiar bema grafite.Só com a ponta do lápis exageradamente fina se pode fazer a palavra tomate”. Assustei-me. Para escrever a palavra tomate meu irmão necessitava de um punhal, concluí.” (pg44) 
 “Meu pai se encostava na pia, depois de afiar a navalha.” (pg45) 
 De acordo com os trechos explicitados acima, pode-se notar que essa imagem é trabalhada em todo o livro. Tanto a lâmina, a faca, o vidro, o punhal, a ponta, a grafite exageradamente fina e a tesoura, são materias que perfuram, cortam, exercem violência, como uma ferida. Causam uma ruptura.

Ao enxergar todos esses elementos, às vezes metafóricos, pode-se ter uma idéia de acordo com o que o autor apresenta, por exemplo, a ruptura causada pela morte de sua mãe, o distanciamento do garoto com o mundo, as violências das relações humanas e suas representações.

Voltando a analisar as representações de mãe/madrasta, agora com o foco na segunda citação do início do texto, pode-se perceber que, ao contrário da madrasta, a mãe é referida com demasiada delicadeza, tanto é que, a própria escolha das lembranças dos doces, ambrosia e claras em neve (batidas com açúcar), são importantes recursos que compõem a intenção do autor.

A imagem das “Claras em Neve”, realmente, lembra uma ilha (podendo estar navegando em um mar de leite), mas, também pode remeter, da mesma maneira,à nuvens, dando a idéia de que, em qualquer ângulo que a imagem do doce for vista, ou, até mesmo, em outras perspectivas, sempre irá gerar uma imagem que transmite leveza.

Como se não bastasse, o elemento “açúcar”, (contrário de amargo), é acrescentado à composição do trecho, trazendo a tona o quão oposta, às amarguras da vida e às atitudes da madrasta a mãe era. Pode-se considerar também, o antônimo que a palavra se transforma ao ser comparada com o título do próprio livro.


Já o outro doce, “Ambrosia”, de acordo com a mitologia grega, era considerado como um doce divinal, em que, apenas os deuses do Olimpo podiam saboreá-lo, sendo ele vetado aos mortais. Conta a história que, quando os deuses o ofereciam a algum humano, este, ao experimentá-lo, sentia uma sensação de extrema felicidade. Há também, outra vertente desse mito que, conta que o mortal que o comesse passaria a ser imortal.

Ao olhar por esse prisma, talvez, o autor quisesse passar a imagem de algo capaz de retirá-lo da tristeza, como diz a mitologia. Ou, quem sabe, expressar a tentativa, subconsciente, da imortalidade. O desejo que sua mão não partisse.

A seguir, apresento mais dois trechos que reafirmam a diferença entre as duas, mãe e madrasta:

"Antes, minha mãe, com muito afago, fatiava o tomate em cruz, adivinhando os gomos que os olhos não desvendavam, mas a imaginação alcançava. Isso, depois de banhá-los em água pura e enxugá-los em pano de prato alvejado, puxando se brilho para o lado do sol. Cortados em cruzes eles se transfiguravam em pequenas embarcações ancoradas na baía da travessa."(pg14/15)

“Ela decapitava um tomate para cada refeição. Isso depois de tomar do martelo e espancar, com a força de seus músculos, os bifes. Batia forte tornando possível escutar o ruído na rua. O martelar violento avisava aos vizinhos que comeríamos carne no almoço. Eu padecia pelo medo do martelo e a violência da mulher ao açoitar a carne.” (pg23) 
Para finalizar, após a análise concernente à relação contrastiva entre as duas, percebe-se que o autor em sua narrativa memorialística, também utiliza recursos poéticos como, rimas, “A felicidade nos era interditada. Toda tristeza prenunciava uma morte que não chegava. Dormi e ao despertar-me já amava.” e, ritmo, “Dói. Dói muito. Dói pelo corpo inteiro.”, que, no caso, se dá através da gradação.

Em uma prosa destacam-se três elementos, sujeitos, tempos, e espaços ficcionais. Os sujeitos, claro, além do próprio narrador menino que revive sua história, engloba a família, incluindo pai, mãe, madrasta, irmãos e alguns outros personagens secundários. Referente aos tempos destacam-se todas as ações que estão inseridas na obra, em um determinado espaço.
           
         Então, o livro pode ser considerado como prosa poética, em virtude dos elementos enumerados acima, em parceria com as várias palavras e expressões líricas, (às vezes característica do poema), e aos parágrafos curtos com várias metáforas.

(Queirós, Bartolomeu C. de. Vermelho Amargo. Cosac Naify, 2011 )



7 comentários:

*Dorath* disse...

Meu Deus!
Fiquei chocada com a Madastra.. como assim cortava o tomeate como se estivesse degolando uma das crianças..?
Fiquei curiosava para ler este livro.
Parabéns pela análise,impecável.

Thailáá disse...

Nossa, adorei seu blog ;]
http://florbrilhante.blogspot.com/

On the Road disse...

O livro é tão lindo, por "dentro" e por fora, que inspira análises. Adorei!

Paullo disse...

ótima análise, ajudou-me muito no meu preparatório para UFMG. Obrigado.

Ângela Maria Câmara Nogueira da Gama disse...

Acabo de ler Vermelho Amargo. Vim até aqui para conhecer mais, olhar mais.
Adorei a análise!
Obrigada.
Angela Gama

tudo sobre jogos disse...

É um livro fantástico levando o leitor até sentir parte dos sentimentos do eu-lírico. Parabéns pela análise perfeita, ajudou ainda mais no entendimento das metáforas.

Anônimo disse...

Amei o livro, ri, chorei, muito bom e emocionante, fiz um trabalho sobre ele na faculdade.
Lindo demais...