sábado, 26 de novembro de 2011

2 _ Sobreposto



Naqueles dias chuvosos de dezembro, nem a umidade da chuva amaciava a carne seca e opaca. Meus olhos já não brilhavam, as lágrimas eram apenas vapor. Nuvem grandiosa, que sobrepõe à beleza do sol.

Ao chegar à faculdade, mais um dia, daqueles monótonos, ouvi alguém me chamar e, o mais estranho, por meu apelido, “Jhone”. Logo me virei e percebi que não era quem eu esperava que fosse:

_ Ei Jhone! Meu nome é Daniel, sou do primeiro semestre do curso.
_ Tudo bem com você? – Perguntei, apenas respeitando os parâmetros de uma boa educação.
_ Sim... Na verdade, eu quero lhe convidar para minha festa. Será apenas uma descontração na sexta-feira, no Clube Z, após a aula. Vê se aparece lá, vou estar lhe esperando.

_ Claro, se der, estarei lá. – Sabe quando queremos nos livrar de alguém? Exatamente por isso, respondi com tanta precisão, mas, na verdade, queria logo sair Dalí; não sei explicar, mas algo em seu olhar me deixava desconfortável. Sentia os meus olhos queimarem diante dele.

Realmente não sei explicar, só sei dizer que, naqueles dias eu sentia estranha imprecisão do mundo. Os meus passos não eram mais firmes, o meu toque era áspero, ou seja, todo o brilho, a cor de minha vida, apagara-se. Luminária que nada iluminava.

Cheguei à sala, como habitualmente, sentei-me na última cadeira da fileira central, sentia que o quanto mais eu me camuflasse, menos dor eu sentiria. Queria apagar todas as minhas lembranças. Libertar-me do açoites era o meu maior objetivo. Minha carne, já amarga, negra... Morta. Como doía!

O caderno já estava aberto. Eu, apenas aguardava a chegada do professor de inglês. Ultimamente, aguardar e guardar repetiam-se como ofício trabalhoso de um químico. Então a sala se enchia com uma massa homogênia de pessoas felizes, viçosas e, eu, o elemento heterogêneo, destoava da alegria juvenil da turma 303.

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